Paraisópolis cria a Escola do Povo na batalha contra o analfabetismo
- 16 mar 2007, 14:11
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Entidades como a CGTB, UMES, CNAB, CMB, ITDP e moradores se unem determinados a vencer o analfabetismo numa das maiores favelas do Brasil. Com 80 mil moradores, Paraisópolis tem cerca de 15 mil analfabetos
Moradores da comunidade, comerciantes, empresas e entidades aceitaram o desafio de enfrentar e erradicar o analfabetismo numa das maiores favelas do Brasil e a segunda maior de São Paulo: Paraisópolis, onde vivem cerca de 80 mil habitantes, a maioria abaixo da linha da pobreza, e que convive com o índice de 15 mil analfabetos ou semi-analfabetos. “Quando a professora foi na minha casa para me convidar, eu não queria vir, achei que já tinha passado da idade de aprender coisa nova, que era difícil demais. Mas está sendo ótimo. Agora que estou conseguindo escrever meu nome, entendi que nunca é tarde para aprender”, conta a aluna Francisca da Silva Correa, mãe de quatro filhos, da primeira turma de alunos da Escola do Povo.
Inaugurado este ano, o projeto Escola do Povo é desenvolvido pela União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis em parceria com o Programa Brasil Alfabetizado, a CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do Brasil), UMES (União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo), CNAB (Congresso Nacional Afro-Brasileiro), CMB (Confederação das Mulheres do Brasil) e ITDP (Instituto do Trabalho Dante Pellacani). O sucesso do projeto garante também o apoio de lideranças comerciais e empresariais da região e do jornalista Chico Pinheiro, escolhido como patrono da Escola do Povo pelo trabalho que desenvolve entre moradores carentes da região de Paraisópolis.
Por conhecer melhor a realidade local, a maioria dos 130 professores que atua no projeto também mora na região de Paraisópolis. “Pra mim essa oportunidade está sendo muito importante. Levei a vida inteira tentando ajudar as pessoas e essa é uma maneira que estava faltando para me dedicar ainda mais”, conta Francinilda Oliveira da Silva, de 54 anos, professora do projeto. Francinilda, que mora no bairro há 21 anos, disse que mesmo tendo trabalhado 17 anos com alfabetização, “está sendo uma coisa nova para mim”. “Estou vendo um esforço muito grande dos alunos. Na minha turma tem uma senhora que, quando chegou aqui, mal conseguia pegar no lápis, e agora ela já está fazendo a letrinha. Às vezes eles pensam que é impossível, que são incapazes, e comemoram muito quando estão conseguindo”, afirma a professora.
Relatando suas experiências nas primeiras semanas de aula, a aluna Maria dos Prazeres contou: “Já estudei e parei, né? Mas tem gente que nunca estudou. Tem uma senhora que está aprendendo agora, e é bastante importante para ela e para cada um de nós. Eu pretendo continuar até o fim”.
PERSPECTIVA
O presidente da União dos Moradores, Gilson Rodrigues, explica que “aqui em Paraisópolis existem diversos programas desenvolvidos pela comunidade que visam melhorar as condições das pessoas, mas nós vimos que o foco principal do nosso trabalho deveria ser a educação”. Gilson, que destacou também o apoio dado pela Associação Panamby e da Associação das Mulheres de Paraisópolis, lembra que toda a comunidade ganha com o projeto. “É fundamental que as pessoas possam estudar para ter a perspectiva de ingressar numa universidade e a consciência do seu papel na sociedade”.
“O Brasil tem 24 milhões de analfabetos, e agora estamos em condições de transformar essa realidade”, afirmou o presidente da União dos Moradores de Paraisópolis ao falar das expectativas do programa de alfabetização. “Com o projeto de crescimento anunciado pelo governo federal, vimos que grande parte dele vai para a educação, e com o apoio da sociedade poderemos acabar com esse mal que há tanto tempo persegue o povo brasileiro que é o analfabetismo”.
JÚLIA CRUZ
Hora do Povo em 16/03/2007
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