600 histórias de luta, garra e dedicação

“Sempre morei na fazenda e lá não tinha escola. Só agora consegui um tempinho para aprender a ler e estou muito feliz, vocês nem imaginam o quanto”, afirmou a aluna Maria José Nogueira, que conseguiu se formar em alfabetização aos 46 anos de idade. “A gente sofre muito sem saber ler. Não sabe assinar nome, não sabe comprar coisa no mercado, não pode pegar ônibus sozinho”, explicou Elzene Souza, também de 46 anos, que acabou de ser alfabetizada. “A vida muda completamente”, comemorou.

As histórias variam, mas a vida difícil e o exemplo de garra e dedicação são uma constante entre os 600 formando de diversas idades que estiveram no Jockey Club recebendo seus diplomas.

“Foi uma luta”, resumiu a aluna Maria da Paixão que, às vésperas de completar 30 anos e com 5 filhos, nunca conseguiu tempo para os estudos. “Sempre tive vontade de aprender, mas a vida foi difícil e meus filhos aprenderam a ler antes de mim”, contou a aluna, que para frequentar o curso de alfabetização tinha que deixar “tudo pronto em casa para dar tempo”. O “tudo pronto”, explica Maria da Paixão, “é a comida dos filhos, a roupa lavada, passada, casa limpa, mercado feito”. E completa: “ Foi difícil, uma luta mesmo”.

“Com esses alunos a gente mais aprende do que ensina”, afirmou Jaidete Maria da Silva, uma das primeiras professoras do curso em Paraisópolis. “Aqui aprendemos lições de vida. São pessoas que enfrentam o peso da idade, o cansaço e muitas vezes até a fome pela determinação de aprender a ler e a escrever. É muito esforço, é uma vitória a cada dia. Tenho muito orgulho por eles”, disse a professora.

“Quero ajudar mais gente a aprender a ler e a escrever. Eu tinha vergonha de não saber nem assinar meu nome, e hoje tenho muito orgulho quando me pedem para eu assinar alguma coisa. Faço bem caprichado”, conta Edson Floriano, que está se formando em alfabetização aos 24 anos de idade. “Tive uma vida puxada. Meu pai era doente e tive que trabalhar desde cedo para trazer o arroz e o feijão para casa. Mas agora que consegui aprender, vou ler o que você vai escrever no jornal”, disse sorrindo.

Jornal Hora do Povo 13 de Junho de 2008



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